FIRST LOVE— I




Ás vezes fico tão curioso sobre você, sobre o que você se tornou.
Ás vezes penso em você, sinto tanto a sua falta.
O que estaria fazendo agora?
Primeiro amor, meu amor inesquecível,
Eu sou o único que ainda se lembra? Chamar-te-ei desesperadamente,
Até que eu possa te encontrar e te ter novamente.
Pra sempre.
Baseado em First Love –  After School.

I.
Era fim de tarde e Henry se encontrava cansado, muito cansado. Quem quer que tenha inventado a faculdade realmente não queria dar moleza para os estudantes. Passara o dia inteiro em meio aos cálculos e naquele momento a única coisa que queria era descansar na sua não tão larga e confortável cama, comendo dos melhores cookies de todo o quarteirão, feitos é claro por sua mãe. Desde o casamento do mais velho que senhora Lau dava uma atenção exagerada aos dois outros filhos, e, agora com a caçula viajando ao lado dos avós, toda a sua dedicação era dada ao único filho em casa, Henry. E não era como se ele pudesse reclamar, afinal, ter todo o tipo de comida possível, quarto sempre arrumado e nenhuma criatura berrando coisas pela casa era algo maravilhoso.  
O caminho de volta para casa foi regado de todo um desejo pelos doces de sua mãe, chegou até a salivar só de lembrar aquele pudim de leite incrível que ela adorava fazer aos domingos. E foi pensando nessa sobremesa que o rapaz chegou à conclusão de que estava engordando e tudo por culpa de sua mãe e suas mãos de fada. Por que ele não tinha uma mãe que cozinhava mal como a maioria de seus colegas? Talvez o pudim de leite fosse a explicação dos seis arrumarem uma desculpa para ir a sua casa todo domingo. Adentrou pela porta dos fundos, mas não encontrou a jovem senhora no fogão como de costume. Estranhou e seguiu até a sala, não a encontrando lá também. Subiu as escadas e verificou cada um dos quartos – era comum que ela entrasse no quarto vazio de Clinton e simplesmente chorasse de saudades –, mas nada dela. 
- Mãe? A senhora está em casa? – Gritou enquanto descia as escadas, já estava ficando preocupado.
- Oi, eu estou no porão. – Gritou a mulher de volta e Henry adotou uma expressão confusa. O que ela estaria fazendo lá?
Passos rápidos o levaram até a curta escada no fim do corredor, descendo os cinco degraus e encontrando todos os tipos de caixas e sacolas desorganizadas no chão do lugar. Sua mãe parecia bastante entretida em meio a tantas coisas e lembranças que o garoto permaneceu calado por alguns instantes, apenas observando a mulher que tanto amava sorrir feito boba enquanto encarava uma foto de família.
- Mãe? – Disse agora em voz baixa, caminhando com cuidado entre toda a bagunça. A mulher olhou em sua direção e logo estendeu a fotografia para que ele pudesse ver.
- Você se lembra desse natal? – Disse em voz alta, chamando-o com a mão para se sentar ao seu lado. O rapaz se abaixou, atendendo o pedido e segurando o retrato.
- Lembro. – Uma risada rouca escapou de seus lábios e a foto foi devolvida à ela. – Foi o meu primeiro violino, mal sabia segurar.
- E quando falei pra tirar foto, Clinton e Whitney se organizaram perfeitamente. Você veio no meio deles e atrapalhou tudo. – Riu com vontade, apoiando a cabeça no ombro do filho. – Logo depois sua irmã veio reclamando que você roubou a atenção dela.
- E desde então ela vive repetindo isso pelo menos três vezes por dia. – Em um pequeno carinho, pendeu a cabeça até que se encostasse à alheia, mantendo-se próximo dela daquela maneira. – Mas por que está revirando essas coisas, mãe?
- Seu pai está trabalhando, eu estava com tédio. Senti falta de vocês e vim aqui matar saudade de quando eram crianças. – Suspirou pesadamente.
- A senhora e a nostalgia. – Rolou os olhos, em uma plena brincadeira.
- Cada um com aquilo que gosta, tá. – Respondeu a mulher com um bico nos lábios e Henry riu, negando com a cabeça. Senhora Lau foi até a caixa e retirou mais uma foto. – Olha essa aqui, na sua formatura.
- Que roupa ridícula, mãe. Foi a senhora que escolheu? – Fez uma careta.
- Não, foi você. – Disse entre risos, recebendo outra careta do filho como resposta. – Lembra da Sra. Catherwood? – Se referia a mulher loira que estava com Henry na foto.
- Pra mim era Tia Annie, mas fica um tanto gay chama-la assim agora. – Riu e passou a analisar a fotografia com mais atenção. – Por que eu não estava olhando pra câmera?
- Porque a Hyerin estava do outro lado com a mãe. Você não parava de olhar pra ela. – E então o sorriso bobo de antes voltou aos lábios da mulher. Henry franziu o cenho, lembrava desse nome, mas não exatamente a quem ele pertencia.
- Me lembro dela, eu acho. Esse nome é familiar. Nós éramos muito amigos?
- Você era apaixonado por ela e dizia que iriam se casar. – A expressão no rosto de sua mãe era completamente boba e ele agarrou os olhos.
- Eu o quê? – Perguntou assustado. Como ele não se lembrava disso?
A mulher riu da surpresa do filho, apesar de achar que ele recordava muito bem, só não se permitia isso. Senhora Lau então levantou e foi até algumas caixas, abrindo a do meio e retirando dali alguns papéis. Henry observou tudo confuso, mas nada disse. Logo sua mãe estava de volta, estendendo um deles para o rapaz que encarou com atenção e esboçou um pequeno sorriso no canto dos lábios.
- Lembro-me de ter feito esse desenho em alguma recreação. – Positivou com a cabeça e permaneceu olhando o papel. – Mas a imagem dela na minha mente está um pouco vaga. – Virou o rosto na direção da mãe que achava graça de toda a situação. – Talvez se a senhora me contar um pouco disso tudo, minha memória volte a funcionar. Senhora Lau tinha um sorriso divertido em seus lábios, foi só falar no nome da garota para que um interesse, mesmo que inconsciente, tomasse conta de seu filho. Dezesseis anos depois e talvez nada tenha mudado.
- Eu não sabia de nada até encontrar esse desenho perdido nas suas coisas...

         Era só mais um dia comum na cidade de Toronto, Canadá. Estava próximo das três da tarde e senhora Lau tentava inutilmente arrumar o quarto do filho mais novo. Sabia que em menos de meia hora ele estaria de volta, eufórico como sempre, espalhando os novos brinquedos pelo chão do espaço e gritando sobre como foi seu dia na escola. Sempre com energia demais para uma criança de apenas seis anos, ou talvez ela que estivesse cansada demais para aguentar o pique do pequeno Henry. Recolheu alguns desenhos que estavam espalhados pelo chão e quando os arrumava para por em cima do criado-mudo, um em questão lhe chamou a atenção. Em meio a desenhos comuns de criança, como árvores, sol e nuvens, um casalzinho de mãos dadas se encontrava no centro da folha. Ambos com bochechas relativamente grandes o que fez com a dona de casa risse baixo. Os olhos da garota eram dois tracinhos bem tortos e um sorriso enorme foi desenhado em seu rosto. A mulher se sentou, intrigada com o que se tratava aquele desenho e dois minutos depois o autor da obra entrou as pressas, pulando freneticamente na cama.
         - Mamãe, mamãe! Você nem sabe o que eu aprendi hoje. – Os pequenos braços do garotinho passaram pelo pescoço de sua mãe e um beijo estalado foi deixado em seu rosto.
         - O que você aprendeu hoje, meu amor? – Desviou sua atenção do papel, virando o corpo para o filho e o abraçando com um dos braços.
         - Um moço bem grandão foi na escola hoje. – Os bracinhos erguidos para demonstrar o quão alto era o homem, a mulher riu. – E levou umas coisas muito legais que depois viraram carrinhos e eu ganhei um! – Henry saiu às pressas da cama indo até sua mochila e retirando de lá um brinquedo de madeira.
         - Olha, que lindo! E você aprendeu a fazer carrinhos também? – Só então lembrou-se que era a semana das profissões. Desde a segunda que o pequeno chegava com uma nova história  pra contar sobre os homens altos e fortes que ele queria se parecer quando crescer.
         - Não. – A cabeça negou freneticamente. – O moço disse que trabalhar com facas e tesouras é muito perigoso. Aí a gente só assistiu e de longe porque a Tia Annie num deixou chegar perto. – Um pequeno bico se formou em seus lábios e só então se deu conta do que a mãe segurava. – Mamãe, o que é isso na sua mão?
         - Ah, é um desenho que eu achei nas suas coisas.  – Estendeu o papel em sua direção. O garoto encarou a folha por alguns instantes e então se sentou ao lado da mãe, apoiando os cotovelos no joelho e o rosto nas mãos. – Foi você que fez?
         - Aham. Na aula de desenho. – Deu de ombros e suas fartas bochechas avermelharam levemente o que o fez escondê-las. Senhora Lau riu.
         - E quem são? – Perguntou interessada e o garoto desviou o olhar para os próprios pés que balançavam rapidamente.
         - Eu.. – Suspirou e apertou os olhos juntando toda a coragem que tinha e virando para a mãe com um sorriso bobo nos lábios. – E minha namorada. O nome dela é Hyerin.
         - E desde quando você está namorando, Henry Lau? – Cruzou os braços mantendo uma postura séria, por mais que estivesse morrendo de vontade de rir de toda a situação. O garotinho se virou para ela com um bico nos lábios.
         - Desculpa mamãe! Eu sei que você é a mulher da minha vida, mas não posso casar com você porque já tem o papai. – A mulher riu tendo um brilho inexplicável nos olhos. Henry apontou para o papel, mostrando a garota. – E também, ela é linda. Tem bochechões que nem eu. – Apertou as próprias bochechas, rindo daquela maneira gostosa que só crianças conseguem rir.
         - E ela sabe que vocês estão namorando? – O desenho foi entregue ao filho que o pegou com cuidado e saiu da cama, colocando-o entre os outros.
         - Sabe porque eu defendi ela. – A cabeça balançava em concordância com a própria fala. – O Peter puxou o cabelo dela e chamou ela de bochechuda. Eu disse pra ele parar com isso ou eu ia bater nele.
         - Que coisa feia, Henry! Não se pode bater nos outros.
         - Mas ele tava irritando minha namorada, mamãe. – Deu de ombros e voltou a sentar-se a lado da mulher. – Daí eu chutei o joelho dele. O Peter falou que ia contar pra Tia Annie e eu disse que se ele contasse eu contava que ele puxou o cabelo da Hyerin. Aí depois ela beijou minha bochecha e disse obrigada. – O sorriso em seu rosto era vitorioso, não tinha como não rir de toda a situação e do quão protetor seu filho era.
         - E depois disso vocês estão namorando?
         - Claro. Agora todo mundo sabe que não pode mexer com Hyerin Oh porque eu vou lá e chuto o joelho. – Concordou com a cabeça. – Sabia que o avô dela é coreano? Por isso os olhos dela ficam pequenininhos quando ela dá risada. – Ele tinha um brilho lindo nos olhos e Senhora Lau se viu mais uma vez encantada com o filho que tinha.
         - Certo namorador, tá na hora de tomar banho. – Levantou-se e estendeu a mão para o garoto que deu um muxoxo. – Nem comece. Você acha que a Hyerin vai querer casar com um homem todo sujo e fedorento?
         - Nãããão, mas eu não tô fedorento! E também, eu só vou pra escola amanhã então eu tomo banho amanhã. – Sorriu de maneira travessa.
         - Nem pensar, toma banho agora! Vamos. – Pegou o garoto nos braços que resistiu de início, mas logo se deixou ser levado, cruzando os braços e formando um bico enorme nos lábios.

- No dia seguinte eu fui propositalmente te buscar na escola só pra saber quem era. Assim que cheguei encontrei vocês dois juntos e filho, você tinha razão. Ela era linda. – A mulher sorriu e abraçou o braço do filho, encarando o desenho junto dele. – Não entendo por que vocês perderam contato, era um casalzinho lindo.
- Lembro-me de ter chutado o joelho do Peter. – Riu ele e um brilho diferente estava em seus olhos. Senhora Lau sabia o motivo, ele havia se lembrado dela. – Eu só lembro que depois do jardim ela saiu.
- Você chorou por um fim de semana inteiro. - Riu ela.
- Ok mãe, chega de jogar o meu sentimentalismo infantil na minha cara. – Rolou os olhos, ela riu novamente. 
- Ai filho, eu sempre quis que vocês ficassem juntos quando crescessem, sério. – Suspirou. – Você poderia usar a internet pra tentar encontra-la.
- Não é assim tão fácil, mãe. Quantas Hyerin’s Oh existem no mundo? – Até tinha pensado nessa possibilidade, mas já sabia o quão difícil seria.
- Annie deve manter contato com a família dela ainda. – Senhora Lau parou um pouco e só quando notou o quão brilhante fora sua ideia, entretanto, continuou no seu tom calmo. – Na verdade, se não me engano Annie e a mãe dela eram vizinhas quando crianças, talvez sua ex-professora saiba onde encontra-la, não sei. – Disse como quem não quer nada, rindo mentalmente sobre a expressão confusa que tomara conta do rosto do filho. Logo, a voz de mais uma pessoa adentrou seus ouvidos, fazendo a levantar.

- Seu pai chegou, vou indo até lá antes que ele surte ao ver o porão desse jeito. – Beijou a testa de Henry e saiu, deixando-o sozinho em meio a suas lembranças, dúvidas, desenhos e bagunças. 

(Continua...)
4 comentários
  1. OMG, estou encantada. Muito!
    É incrível a evolução dessa fic pra última fic sua que eu li, Thi. E já estou curiosa pra saber como tudo isso vai desenrolar. E o quão gracioso foi essa menção às bochechas? Hahaha. 2cheeks rules!

    Adorei, de verdade!
    Agora, mais do que antes, posso afirmar que você ganhou uma leitora!

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    1. Eu vou responder, só por descargo de consciência! HAHA Fico abrindo as páginas e ME SENTINDO MAL porque não tinha respondido os comentários, então vamos lá.
      Sami, eu te gosto muito e tu sabe disso, saber que te conheço desde Presente de Grego (shame on me) e que você está aqui lendo minhas histórias novas e acompanhando minha evolução me deixa, sem dúvidas, muito feliz. Obrigada mesmo, de coração.
      AI, ARRUMEI UMA SHIP PARA 2 CHEEKS, SÓ VEM, MIGA! ÇSALDKÇSLK

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  2. "[...] cansado, muito cansado. Quem quer que tenha inventado a faculdade realmente não queria dar moleza para os futuros estudantes." - dá pra sentir daqui o cheirinho de "esperiência" própria..rs
    Já te falei, mas só reiterando: coisa mais fofa o Henry criança :3
    O guri todo hiperativo correndo pelo quarto e conversando, daí para pra falar de sua conquista amorosa.. o Henry mesmo tem cara de que era desses. E ele levantando os bracinhos pra contar sobre os caras altos e fortes, sempre fico rindo sozinha quando imagino.. ainda vou desenhar essa cena x]

    Neext o/

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    1. Mil anos depois e essa sua citação ao cansaço de Henry por conta da faculdade é mais verdadeira do que nunca, né, miga? HAUHAUHUAH
      HENRY CRIANÇA EU NÃO AGUENTOOOOO, sério. Não aguento mesmo, eu fico querendo morder esse menino çsdlfkçlkdsçlk
      Eu ia dizer "pois desenhe sim", mas a senhora já desenhou o Henry, então permaneço calada pq estou errada em responder mil anos depois HUAHAUH

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